“O silêncio que grita em Cabo Delgado”



Há lugares onde a riqueza deveria ser sinónimo de esperança, mas em Cabo Delgado ela tornou-se símbolo de dor. A terra que guarda gás, rubis e florestas imensas é a mesma que hoje chora pelos filhos perdidos, pelas casas queimadas e pelos sonhos adiados.

Fala-se muito sobre os recursos e sobre o progresso que eles prometem, mas pouco se ouve sobre as vidas interrompidas, os rostos sem nome que vagueiam entre campos de deslocados e aldeias em cinzas. Cabo Delgado tornou-se uma ferida aberta, onde o ouro brilha para poucos e o sofrimento pesa sobre muitos.

É curioso como a narrativa oficial se veste de números e promessas, enquanto o povo vive em silêncio, com o olhar preso num horizonte de incerteza. A guerra ali não é apenas de armas  é também uma guerra contra a exclusão, contra a desigualdade, contra a indiferença.

O terrorismo não nasceu do nada. Alimentou-se de anos de abandono, de promessas quebradas, de juventudes sem rumo. Alimentou-se do contraste entre o luxo de quem explora e a miséria de quem sobrevive. Por isso, pensar que Cabo Delgado é um caso isolado é não querer olhar o país inteiro no espelho.

Porque o que ali se passa é reflexo de uma nação dividida entre a abundância e a necessidade, entre o discurso e a prática, entre a glória e o esquecimento.

Cabo Delgado não pede compaixão  pede justiça. Pede que o brilho do gás e dos rubis ilumine também as casas simples, as escolas esquecidas, as vidas que lutam por dignidade.

Enquanto isso não acontecer, o silêncio daquela terra continuará a gritar e quem tem ouvidos, que escute.

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